Um olhar diferente

Levar o ouvinte a ter um olhar diferente, um olhar transformador, um olhar semelhante ao de Cristo para com os necessitados de corpo, alma e Normalmente quando ouvimos alguém pregando neste texto o que mais nos chama a atenção é “A CURA DO COXO”, o milagre que acontece na porta do templo. A palavra “templo” aparece cinco vezes no texto que lemos (At 3,1.2.3.8. 10). Parece que o autor quer ressaltar a importância desse lugar. Mas não é exatamente dentro do Templo que acontece o milagre, mas sim no espaço que as pessoas, pobres, doentes, estrangeiros e aleijados ficavam mendigando, nesta época era comum ver este tipo de pessoa, pedindo esmolas na porta do Templo, pois era um local de grande circulação de pessoas religiosas, que iam segundo o costume judaico orar em determinados horários no templo, isso acontecia três vezes ao dia, o primeiro horário é a hora terceira (nove da manhã), o segundo é a hora sexta (meio dia) e o terceiro é a hora nona (três da tarde), e é neste horário que Pedro o João estão indo orar no templo. Para o judeu, frequentar o Templo de Jerusalém era muito Mas para entendermos melhor o contexto em que esta situação acontece vamos dar uma olhada rápida para uma promessa feita aos discípulos por Jesus em Atos 1:8 que diz: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.” Com o cumprimento desta promessa em Atos 2  no dia de pentecostes, os discípulos agora estão pronto para serem testemunhas de Cristo, Pedro e João tinham acabado de sair desta experiência impar e portanto estavam revestidos de um poder transformador da parte de Deus, um poder que desemboca no cumprimento da missão de Deus.
Mas quem nunca ouviu nos semáforos, nos ônibus, nos bancos, nos estabelecimentos comerciais, nas praças e avenidas das pequenas e grandes cidades e também muitas vezes nas portas de nossas igrejas a frase: “Tem uma moedinha ai, tem um trocado!” Acredito que a maioria senão todos aqui já ouviram esta frase, o número de pessoas necessitadas em nosso pais ainda é muito grande, hoje segundo dados do site Brasil cidadania, são cerca de 15,7 milhões de pessoas vivendo na pobreza no Brasil, dos quais 6,5 milhões continuam abaixo da linha de pobreza. Encontrar com uma destas pessoas que vivem na mais completa miséria já faz parte do nosso cotidiano e por ter se tornado uma coisa digamos “comum” muitas vezes nós não damos conta disso.

Ler- Atos 3:1-10

Transição: Quero convidar aos irmãos e irmãs para não olharmos especificamente neste texto para o milagre, que é o resultado final do olhar de Pedro e João, mas que olhemos para esta passagem com UM OLHAR DIFERENTE, como foi o olhar de Pedro e João para o coxo antes do milagre. Nos versículos 3, 4 e 5 encontramos alguns verbos que nos trazem um melhor entendimento sobre o “OLHAR”, que descrevem diferentes formas de ver e enxergar, as quais veremos a seguir.

1º O olhar do coxo para Pedro e João

No versículo 3 diz: – “O qual, vendo a Pedro e a João que iam entrando no templo, pediu que lhe dessem uma esmola.”
O coxo estava na porta do templo de Jerusalém chamada “Formosa”, que em grego significa “algo que floresce abundantemente na estação certa”, onde o coxo era trazido ali todos os dias para pedir esmolas, ele era coxo de nascença e bem conhecido ente os habitantes de Jerusalém. Esta porta não era uma porta como outra qualquer, ficava do lado oriental, era uma porta muito grande, tinha cerca de vinte e cinco metros de altura, toda feita de um bronze especial da cidade de Corinto e tinha um brilho intenso, e por isso talvez assim chamada “Formosa”, essa porta dava acesso ao pátio onde ficavam as mulheres, e era costume que os mendigos e os mais necessitados ficassem naquela porta para conseguir esmolas. Mas o que me chama a atenção neste texto não é o templo nem a porta e sim as diferentes formas que o verbo olhar assume no decorrer do texto.
O primeiro olhar é o do coxo quando ele vê Pedro e João entrando no templo, o
texto diz: “O qual, vendo a Pedro e a João, o verbo aqui é vendo no original grego (oraw) o mesmo pode ser traduzido como ver, notar, perceber, é quando notamos a presença de alguém.
No olhar do coxo, a presença de Pedro e João era somente mais uma oportunidade de receber uma esmola, ele estava acostumado a pedir esmolas a quem passa-se por ali, o coxo era um observador com  um olhar interesseiro. Isso é o que normalmente acontece hoje quando somos vistos pelos mendigos e necessitados nas ruas de nossa cidade, para eles nós também somos apenas mais uma oportunidade, de quem sabe, poder faturar uns trocados para matar a fome, manter o vicio, ou até em alguns casos levar o pão aos filhos que estão em casa. Este é normalmente o olhar do necessitado, como o do coxo, apenas uma oportunidade de ganhar uma esmola.

Transição: Esta é a primeira forma do verbo olhar no texto, foi o olhar do coxo para
Pedro e João, apenas um olhar interesseiro, a oportunidade de uma esmola, mas
Pedro e João tem um olhar diferente do coxo.

2º O olhar de Pedro e João para coxo.

No versículo 4 diz: “E Pedro, com João, fitando os olhos nele, disse: Olha para À medida que este encontro se desenrola a intensidade do “olhar” vai aumentando.
A partir do momento em que Pedro fitando os olhos nele, aqui o verbo é fitar em grego (atenizo) que aparece somente 14 vezes em todo o novo testamento duas em 2 Coríntios e as demais em Atos e Lucas. Este verbo fitar (atenizo) quando aplicado é sempre ligado a um momento, é quando chama a atenção para um evento ou ao anuncio de algo decisivo, como em Lucas 4.20, onde Jesus estava na sinagoga e após a leitura do texto de Isaías tem o olhar de todos os participantes fixos nele, todos estavam esperando a instrução que provém do texto sagrado, como também em At. 1.10 na ascensão de Jesus os discípulos fixam os olhos no céu, era um Em seguida vemos Pedro e João pedindo para que o coxo os ”olhe”, Pedro diz: Olhe para nós, o verbo olhe em grego (blepo) pode ser traduzido por ver, olhar.
Aqui vemos o coxo tendo chamada sua atenção para que ele fixe o olhar em Pedro Este tipo de olhar de Pedro e João pode ser encontrado em outros textos, mais com uma característica em comum, está sempre ligado a uma proclamação de fé, fixar os olhos, era uma atitude de reconhecer que havia uma mensagem de Deus para ser acolhida ou uma atitude de reconhecer uma necessidade de realizar uma ação de Deus na vida das pessoas. Assim Pedro e João conseguem que o coxo fixe os olhos neles, pois eles tinham algo de Deus que mudaria a vida daquele homem.

Transição: Vimo qual era o olhar do coxo para Pedro e João, quando eles chegam ao templo era apenas um olhar interesseiro, já Pedro e João tem um olhar diferente, conseguem do coxo um olhar de atenção, agora veremos como essa olhar de Pedro e João pode transformar uma situação:

3º Pedro e João um olhar Diferente, um olhar transformador.

O coxo passa de um olhar interesseiro em busca de esmolas, para um olhar atento para aquele que o chama, ele fixa sua atenção, esse olhar fixado, atento, era ainda um olhar interesseiro, mais um olhar diferente do primeiro, ele esperava sim receber alguma coisa, como realmente recebeu, ainda que não tenha sido o que ele a principio realmente esperava (ouro ou prata), ele recebe muito além do que pedia.
Vemos no olhar de Pedro e João para o coxo um olhar diferente, olhar não significa simplesmente ver, perceber, enxergar, mas também tem o sentido de um encontro existencial: Jesus olha para o jovem rico com amor (Mc 10.21). “E Jesus olhando-o, amou e disse:”, olhar com amor significa olhar atentamente, com afeição e “Um olhar diferenciado” encontramos em Lc 10.31 na parábola do bom samaritano. Onde o samaritano viu e se compadeceu.
Quando continuamos a leitura do texto olhamos para o verso 7: E, tomando-o pela mão direita, “o levantou”: Vemos que a proposta de Jesus é gerar vida nova: Se olharmos para o verso 8- “e entrou com eles no templo” isso é caminhar junto, o paralitico entrou no templo junto com os discípulos.
Se você notou alguma semelhança no olhar de Pedro e João com o olhar de Cristo isto não coincidência é o espirito santo na vida deles.
Até aqui vimos as diferentes formas de olhar e qual intenção destes olhares, como o olhar interesseiro do coxo e olhar diferente de Pedro e João, mas o fundamental e nos perguntarmos como podemos mudar o nosso olhar para aqueles que clamam por socorro, muitas vezes sem ao menos abrirem a boca, pois Jesus nos chama a olhar, não somente olhar, mas,  levantar o caído e caminhar junto com ele.
John Stott, em seu livro Mentalidade cristã, traz a ilustração:
De uma mulher desabrigada que procurou um religioso em busca de auxilio, e ele muito sincero, mas também muito ocupado e não sabendo como ajudá-la prometeu orar por ela, algo que nos parece comum não? Posteriormente a mulher escreveu um poema e entregou em abrigo missionário que dizia assim:

e tu formaste um grupo humanitário para discutir minha fome.
e tu te retiraste discretamente para a tua capela
e oraste pela minha libertação.
e, na tua mente, questionaste, a moralidade da minha aparência.
Estive enferma
E tu te ajoelhaste e agradeceste a Deus por tua saúde.
Estava desabrigada
e tu me falaste do abrigo espiritual do amor de Deus
Estava solitária
e tu me deixaste sozinha a fim de orar por mim,
Parecias tão santo, tão próximo de Deus!
Mas eu ainda estou com fome… sozinha… e com frio.

Muitas vezes somos chamados a uma atitude a um posicionamento, a deixarmos a nossa zona de conforto, que possamos refletir sobre qual esta sendo o nosso olhar para estas pessoas, que com seu olhar estão clamando por uma “esmola”, mas infelizmente isso tem se tornado algo comum ao nosso cotidiano, é mais fácil pegar uma moeda na carteira ou no console do carro e dar ao pedinte nos semáforos, ou colocar nossa “oferta” na salva no domingo, ou pior dizer que vamos orar, muitos de nós com estas atitudes ainda achamos que estamos fazendo a obra de Deus, mas será que estamos fazendo a vontade de Deus? Muitas vezes acho que estamos apenas é mantendo o “coxo” nas portas de nossos templos, devemos aprender com Jesus e seu olhar diferente, seu olhar transformador, aquele que traz vida onde há morte, que traz luz onde há escuridão. Se conseguirmos olhar como Cristo olhou, assim quem sabe poderemos tornar, mais humana a vida humana, sei que não resolveremos todos os problemas da humanidade, mas que possamos ver que atrás de um olhar que pede por uma esmola, tem uma vida clamando por vida. Que nosso olhar possa ser aperfeiçoado a cada dia, estamos aqui sendo preparados nesta faculdade que tem como lema a frase “Preparando vidas para servir o reino de Deus” mas eu gostaria de parafrasear este lema, e assim dizer que estão “Preparando vidas com um olhar diferente, um olhar transformador, para servir o Reino de Deus”, que não sejamos mais um no meio da multidão. Que possamos desenvolver um OLHAR DIFERENTE, que nos permita perceber as pessoas situadas às margens da vida, um OLHAR DIFERENTE que nos permita realizar não só a obra de Deus, mas vontade de Deus na vida daqueles e daquelas que estão por ai esperando serem visto por um OLHAR DIFERENTE, UM OLHAR TRANSFORMADOR, olhar como Jesus olhou e amar como Jesus amou.

E termino com uma frase de Santo Agostinho.
“É o olhar característico do amor que torna a pessoa sensível e atenta para perceber os sinais e demonstrações de afeto, por mais pequenos que sejam ou que aparentemente assim o sejam, que fazem nascer no coração um fundamental sentido de reconhecimento em relação à vida, aos outros, a Deus.” (Santo Agostinho).

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